22 de janeiro de 2014

A Cruz do Patrão

Cruz do Patrão - 2012
Outro monumento histórico do Recife pouco conhecido pelos recifenses é a Cruz do Patrão, localizado atualmente na área do Porto do Recife, voltado para as margens do Rio Beberibe.

Conforme mencionamos em alguns posts do nosso blog, o Recife começou no entorno do primitivo Arrecife dos Navios, que se tornou a entrada da Capitania de Pernambuco graças ao seu porto natural, já utilizado em 1530 pela armada de Martin Afonso de Souza.

As condições naturais de profundidade, abrigo das correntes e dos ventos, possibilitaram a formação sobre as areias da primitiva península do Povo dos Arrecifes, ou ainda, Ribeira do Mar dos Arrecifes dos Navios, que veio se tornar o Bairro do Recife dos nossos dias.
Pera a parte do Sul, onde a pequena Ursa se vê de guardas rodeada, Onde o Céu luminoso mais serena, Tem sua influição, e temperada; Junto da nova Lusitânia ordena A natureza, mãe bem atentada, Um porto tão quieto e tão seguro, que para as curvas das naus serve de muro” (Bento Teixeira, Prosopopea, 1601)
O acesso ao porto, segundo demonstram todos os mapas que tratam desta área, foi uma preocupação constante dos seus habitantes. Daí a existência dos marcos de balizamento que ofereciam a orientação segura de navegação no seu canal de acesso.

Chama a nossa atenção que já nos primeiros anos do século XVII uma grande cruz de madeira, destinada à orientação das embarcações que ingressavam no ancoradouro natural, aparece destacado no mapa elaborado por Diogo de Campos Moreno em 1609. Este mapa foi extraído do manuscrito original da obra "Prespectiva de Pernaobuco como se mostra olhado do Mar desta villa até A Barretta" [Recife], existente no Arquivo Nacional Torre do Tombo em Lisboa, e retrata o primitivo ancoradouro, o arruado de casas, a igrejinha do Corpo Santo, os cursos d’água e as terras circunjacentes.
"Prespectiva de Pernaobuco como se mostra olhado do Mar desta villa até A Barretta", de 1609
Diogo de Campos Moreno
Aquela cruz de madeira já servia como balizamento, necessário à orientação dos barcos que ingressavam no canal de acesso ao porto. Tal marco chegou aos nossos dias conhecido pelo nome de Cruz do Patrão.

Podemos notá-la também nesta gravura, presumivelmente do início do século XVII,
e na planta elaborada pelo padre José Caetano em 1759, denominada "Prospecto da Vila do Recife", vista pelo lado sul da cidade de Olinda. Nesta planta a Cruz do Patrão já aparece representada por uma coluna em alvenaria situada à beira da praia. Assim, em data ainda não conhecida mas certamente na primeira metade do século XVIII, a cruz de madeira foi substituída por um pilar de alvenaria e deslocada mais para o norte, conservando as mesmas coordenadas dos dias atuais.
Prospecto da Vila do Recife - Pe José Caetano - 1759
Fonte: Arquivo Histórico do Exército, Rio de Janeiro

Na Planta e Plano da Villa de Santo Antônio do Recife de Pernambuco, no “alistamento que se fez no anno de 1773 […]”, a Cruz do Patrão encontra-se novamente assinalada trazendo o nº 86.
Planta e Plano da Villa de Santo Antônio do Recife de Pernambuco  - 1773
Fonte: Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro
O mesmo se repete o Plano da Villa de Santo Antônio de Pernambuco elaborado em 1780, que serviu de base ao Plano do Porto e Praça de Pernambuco de José Fernandes Portugal (1808), onde novamente é assinalada a presença da Cruz do Patrão no mesmo local em que se encontra em nossos dias.
“Uma cruz de pedra elevada sobre a península de areia, em face da passagem maior, serve com alguns edifícios de Olinda de guia aos pilotos.” (L. de Tollenare, Notas Dominicais, 1816-17)

É desta época a existência da litografia abaixo na qual a Cruz do Patrão, tal qual conhecemos hoje, aparece no areal do istmo nas proximidades do Forte do Buraco e no horizonte a cidade de Olinda.
Cruz do Patrão, com o Forte do Buraco ao fundo - Litografia do século XIX
As fotos abaixo são do início do século XX e retratam o Istmo de Olinda e Recife com a Cruz do Patrão. Devem ter sido tiradas pouco antes das obras do Porto do Recife, iniciadas em 1909.
Fotos do início do século XX
O marco em si é formado por uma negra coluna dórica, com cerca de seis metros de altura por dois de diâmetro, sem nenhuma inscrição, tendo no alto uma cruz e em ambas as faces as iniciais I.NR.I., acrônimo de Iesvs Natsarenus Rex Ivdaeorvm, do latim, "Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus". Sua denominação é proveniente do termo náutico "Patrão", chefe da guarnição de embarcação pequena a remos ou a motor, ou mesmo do o patrão-mor, maior autoridade portuária.

O balizamento se dava por uma linha reta formada pelo alinhamento da visão do piloto no barco com a coluna da Cruz do Patrão e esta, por sua vez, com a Igreja de Santo Amaro das Salinas (atualmente localizada próxima ao Cemitério dos Ingleses, ladeando a praça Abreu e Lima), do outro lado do Rio Beberibe. No momento do alinhamento os pilotos investiam perpendicularmente na direção da barra, e assim adentravam na segurança do porto sem bater no banco inglês, um grande trecho de pedras e areia, fatores que poderiam provocar encalhamento do navio. Esta rotina foi repetida incessantes vezes ao dia durante séculos.
Igreja de Santo Amaro das Salinas - Atualmente
A coluna foi construída no meio do Istmo de Olinda e Recife, como pudemos observar nos mapas, gravuras e foto acima. Entretanto, devido à erosão fluvial no lado oeste do Istmo e dos sucessivos aterros realizados nos séculos XVIII, XIX e XX, a coluna encontra-se agora próximo ao cais na margem do Rio Beberibe, no extremo norte do Bairro do Recife, em meio ao parque de tancagem de combustíveis, e mais distante da entrada do Porto, no lado oposto.

Localização da Cruz do Patrão
Uma última curiosidade: o monumento também é referenciado no imaginário popular como palco de assombrações, sendo, inclusive, rotulado como o lugar mais mal assombrado do Recife, e referenciado em vários romances de mistérios como "O Cabeleira", de Franklin Távora, e "O Esqueleto", de Carneiro Vilela.

A Cruz do Patrão é em nossos dias o mais antigo monumento do Recife e encontra-se em processo de tombamento, mas não sem muita luta (como a travada pelo historiador Leonardo Dantas). Este monumento já deveria ter sido tombado há muitos anos em face da grandeza e da importância histórica da Cruz do Patrão, além de ter o seu acesso facilitado para visitação.


Fontes:
  • Historiador Leonardo Dantas
  • Arquivo histórico do Exército Brasileiro
  • Biblioteca Nacional

6 comentários:

  1. Tanta coisa linda na nossa cidade e ao mesmo tempo desconhecida. Parabens pelo site. Muito bom.

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  2. Continue com essa luta senhor Leonardo Dantas pois ela é plausível.
    Não vamos deixar que façam com esse monumento fantástico e cheios de história o que fizeram com a igreja na construção da Dantas Barreto e com o forte do buraco, e com os arcos santo Antônio e da Conceição que não conheci mais queria muito ter visto.
    Porque sou amante assim como o senhor do recife antigo e sua história e do moderno tambem.
    Força nessa luta e vamos a vitória.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Esse monumento deve ser bem protegido.

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  5. Visitei a Cruz do Patrão no dia 12/05/2017, confesso que fiquei triste, está abandonada, sem nenhuma sinalização, até chegar la, tive que perguntar muito. Lastimável.

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