18 de janeiro de 2014

Bairro do Recife, uma ilha por acidente

Vista aérea do canal que separa o Istmo de Olinda e Recife
O Bairro do Recife fica atualmente numa ilha, mas esta ilha não existia até o início do século XX.

O Istmo de Olinda e Recife era uma faixa de terra estreita, com largura média de 80m, que ligava o porto do Recife à vila de Olinda. Durante todo o século XVI o Istmo manteve suas características naturais de faixa de terra arenosa de forma longitudinal e estreita, pontuado por pouquíssimos elementos construídos, banhados pelas águas do mar ao leste e pelas águas do rio Beberibe a oeste, com vegetação em sua margem ribeirinha e conexão ao sul com a vila do Recife e ao norte com a vila de Olinda.

Uma análise iconográfica do Istmo durante o século XVII permite-nos observar que enquanto os holandeses construíam um sistema de defesa, edificando novas fortificações, as estruturas do entorno mantinham-se inalteradas: os arrecifes, as barras, os ancoradouros, o rio Beberibe.

No século XVIII o "Plano da villa do Recife de Pernãbuco e parte da costa athe a ponta da cid. d'Olinda", de 1776, de autor não identificado, é possível ver no primeiro plano a linha de arrecifes, sendo o trecho submerso o não colorido. O desenho traz indícios de que a vila do Recife permaneceu se expandindo em direção ao Istmo ou para o "Fora de Portas". O Forte do Brum, normalmente representado distante da vila, nesse mapa já está sendo alcançado por algumas construções. As construções no Istmo que ainda se encontram bem isoladas são a Cruz do Patrão e o Forte do Buraco, mais próximas de Olinda.

Plano da villa do Recife de Pernãbuco e parte da costa athe a ponta da cid. d'Olinda", de 1776

Pulando para o século XIX, o "Plan of the Port of Pernambuco", feito pelo viajante inglês Henry Koster em 1816, mostra bem os diversos componentes do Porto do Recife, que permanecem como nos séculos passados. Bancos de areia, como o “Banco Inglês”, são indicados com áreas pontilhadas. Os arrecifes são desenhados com legendas indicando aqueles que são aparentes (above water) e aqueles que são submersos (under water). No Istmo, as letras E, F e G aparecem representando respectivamente o Forte do Brum, a Cruz do Patrão e o Forte do Buraco.

Plan of the Port of Pernambuco - Henry Koster - 1816

Ao observar esta Planta da Cidade do Recife de 1906, de Douglas Fox e H. Michell Whitley, é possível notar que a península do Recife recebera sucessivos aterros (ver infográfico neste post) e já apresentava uma densa ocupação no trecho entre o antigo Arco do Bom Jesus e o Forte do Brum. Ao norte do Forte do Brum, entretanto, o Istmo ainda apresenta um forte caráter natural.

Planta da Cidade do Recife, 1906. Fonte: Arquivo Público Estadual de Pernambuco

Em 1909, portanto três anos após o registro da planta acima, inicia-se as obras de reforma do Porto e do Bairro do Recife (ver os detalhes desta reforma neste post), que prosseguiram durante todo o ano. Em 1910 foi iniciada a construção do molhe de Olinda, na altura da Fortaleza do Buraco. As obras continuaram em ritmo intenso e no ano de 1911 começou a construção do cais, em paralelo com os serviços de dragagem.

Na fotografia abaixo de autoria de Bocage, 1910, vê-se o molhe sendo construído nas proximidades do Forte do Buraco, com os trens da via férrea.

Construção do molhe de Olinda - 1910

Em função da construção deste molhe houveram alterações nas vagas marítimas em seu entorno. Como consequência, em meados de 1912 o mar causou uma ruptura no Istmo abrindo uma enorme fenda, rompendo inclusive a via férrea construída para execução da obra. Assim, parte do Istmo foi transformado na atual Ilha do Recife, separando-a de Olinda

Na planta a seguir, provavelmente de autoria do engenheiro Alfredo Lisboa, naquele momento responsável pelas obras do Porto do Recife, aparece o projeto de construção do “enrocamento de proteção do Istmo de Olinda”, para cobrir as funções do trecho rompido, dado que tal rompimento prejudicou a comunicação com a obra do molhe de Olinda, feita por via férrea, atrasando a obra em dois anos.
Planta baixa do projeto de construção do “enrocamento de proteção do Istmo de Olinda”
Fonte: Arquivo Público Estadual de Pernambuco

Segundo Alfredo Lisboa (1915, p. 23), o rompimento do Istmo acima descrito “veio originar a idéia de converter a bacia do Beberibe [...] em uma vasta doca de comércio, em comunicação direta com o anteporto”. Nesse caso haveria, ainda segundo Lisboa, a necessidade de “remover, em parte ou no todo, o enrocamento de proteção exterior ao Istmo de Olinda.”. Em outras palavras, depois de retirado, o enrocamento daria lugar a um canal de comunicação do anteporto (entre os arrecifes e o Istmo) com a bacia do rio Beberibe.

Na planta abaixo, datada de 1932, podemos ver que ainda não havia sido realizada a ruptura definitiva, conservando-se o "enrocamento" construído após o acidente.

Planta do Recife e arredores - 1932
Fonte: Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano
Por fim é importante observar que embora o rompimento do istmo tenha sido um acidente, um "efeito colateral" das obras de reforma do porto e, portanto, não previsto no projeto original, a idéia de abrir um canal definitivo ligando o mar com a bacia do Beberibe já aparecia em projetos do século XIX, como o Projeto de melhoramento do Porto do Recife, de 1874.

Fontes:
  • Cabral, Renata Campello e Pontual, Virgínia Pontual, Transformações do território e representações cartográficas: o Istmo de Olinda e Recife, Brasil, 2011
  • Lubambo, Cátia, Bairro do Recife: Entre o Corpo Santo e o Marco Zero, 1991

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